Um judeu falou para Deus: - mandei meu filho para a Pasletina estudar para ser rabino e ele voltou padre.

E Deus: - foi o que aconteceu comigo também.

Após tanto tempo, quem sabe escrever novamente...

“Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei.
Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra.”

Carlos Drummond de Andrade

ADOLESCENTES

Antes da modernidade, não existia a adolescência. Ou você era criança, ou você era adulto. E a transição era biológica. Seu corpo dava os sinais de sua metamorfose. Tornar-se pronto para a reprodução era também estar pronto para assumir responsabilidades. Trabalhava-se desde a infância e casava-se com quatorze, quinze anos.

Na atualidade, protelamos essa transformação. O que antes era imediato, transformou-se em um período de tempo cada vez maior. Seis, oito, dez, quinze anos para passar de uma criança para um adulto. Pegamos um ser humano pronto, do ponto de vista biológico, e o chamamos de adolescente, o infantilizamos. Impedimos que assuma responsabilidades, que seja punido pelo seus erros. Dizemos que são incapazes (do ponto de vista jurídico) e assumimos a responsabilidade por eles. Entretanto, damos a eles (os adolescentes) uma liberdade maior que qualquer de nossos antepassados sonharia em ter.

Os adolescentes estão em uma condição de proteção total. Contra eles, ninguém pode. São crianças em corpos de adultos. Não cometem crimes, não podem trabalhar, há restrições para constituir família. No entanto, podem “ficar” a vontade. Ir para a balada, beber, fumar, transar, sem se preocupar com as consequências. E, em alguns casos, com o dinheiro de uma mesada que vem sem nenhum esforço.

Nossos adolescentes são uma arma em potencial. Propensos a desrespeitarem todas as outras pessoas em uma concepção de liberdade contemporânea e assustadora.

 

Gildásio Almeida Junior

OS GAYS E A BÍBLIA

OS GAYS E A BÍBLIA

Frei Betto


É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.


No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).


Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).


No 60º aniversário da Decclaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.


A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.


Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.


São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.


A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).


Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?


Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.


Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?


Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.



Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

Polícia mata, omite seus mortos e fica impune

Números de mortes de civis provocadas pela polícia não são reais na maioria dos estados brasileiros
Marcio Zonta

A polícia brasileira é cada vez mais letal. Segundo a historiadora Ângela Mendes de Almeida, coordenadora do Observatório das Violências Policias de São Paulo (OVP- SP), no entanto, o número de mortos por agentes do Estado é ocultado e embaralhado. “Nenhum órgão oficial quer contar, com métodos científicos, os mortos”, completa.

Nesse sentido, o OVP-SP contabiliza as mortes cometidas por policiais no Estado de São Paulo, que não entram nas estatísticas oficiais da Secretaria de Segurança Pública, através de um levantamento diário de notícias veiculadas em aproximadamente 100 jornais. Assim, aos 272 civis mortos por policiais divulgados pelo Governo do Estado no primeiro semestre, um levantamento da OVP- SP acrescenta mais 149 óbitos provocados por agentes do Estado.

As formas de execução, segundo Ângela, são variadas: “temos a ‘morte em confronto’, que é o homicídio frequentemente praticado por agentes do Estado fora de serviço, quando estão em bicos irregulares e em atividades privadas; a morte por bala perdida, casos que só acontecem em bairros pobres e favelas; as chacinas executadas por encapuzados ou homens de negro que nada mais são do que grupos de extermínio formados por policiais; e a perseguição tresloucada a um suspeito, quando não hesitam em colocar em risco a vida dos habitantes dos territórios da pobreza”.

Não contabilizados

Porém, dentre todas as circunstâncias apontadas por Angela, muitas não entram nos números oficiais das secretarias, já que ela não contabiliza as mortes provocadas por outros agentes do Estado, tais como: guardas civis metropolitanos, policiais rodoviários federais e todos os assassinatos cometidos por policiais encapuzados, organizados em grupos de extermínio.

Nesse sentido, a adolescente de 17 anos, Ana Cristina Macedo, vitimada por bala perdida durante uma perseguição da polícia civil no dia 31 de setembro, na Favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, não teve sua morte atribuída a um agente do Estado, mesmo comprovado que o disparo foi efetivado por um. A morte de Ana Cristina é contabilizada junto aos homicídios culposos.

É o que explica a advogada do Programa de Justiça da Conectas Direitos Humanos, Marcela Fogaça Vieira. “Esses números não englobam os casos de homicídios dolosos ou culposos cometidos por policiais, que são diluídos no número geral de homicídios. Ou seja, o número de homicídios cometidos por policiais é mais elevado do que aqueles oficialmente divulgados”.

Procurada, a Ouvidoria da Policia Militar de São Paulo, não quis dar explicações sobre as maneiras da contagem de civis vitimados pela Polícia.

Dossiê preparado por diversas organizações sociais, entre elas o OVP- SP, sobre execuções extrajudiciais e mortes pela omissão do Estado de São Paulo, lançado no dia 9 de outubro, dia mundial contra a pena de morte, traz observação do relator da ONU para execuções sumárias, Philip Alston, constatando “que as polícias de São Paulo utilizam a força letal e não a inteligência para controlar o crime. Mais do que isso, esta força letal é utilizada para a proteção do patrimônio e não da vida”.

Caatinga mata!”

Na Bahia, a situação não é diferente. Segundo Carla Akotirene, assistente social e coordenadora do Fórum Nacional de Juventude Negra, a frase “Pai faz, Mãe cria e Caatinga Mata!” vem exposta nas viaturas da Polícia da Caatinga, “uma divisão policial assassina, conhecida por abordagem violenta”.

Segundo o Centro de Documentação e Estatística Policial, em 2008, pelo menos 2.237 pessoas foram assassinadas em Salvador e região metropolitana. Números, divulgados de maneira generalizada, e que segundo Carla esconde os dados reais da repressão policial na Bahia. “Dentre estes números cabíveis institucionalmente, escondem-se milhares de homicídios praticados pelos aparelhos de repressão em seus diversos departamentos, não computados à ação policial”, denuncia.

Na ação da Polícia da Caatinga está a maior prova, segundo ela, da mentirosa divulgação dos números pelo governo baiano. “Sobre a Polícia da Caatinga, não há sequer dados estatísticos, uma vez que a totalidade das notícias enaltece a corporação e o alto índice de letalidade, cada vez mais assustador produzido contra os corpos negros e jovens”, aponta.

À frente da Campanha contra o Extermínio da Juventude Negra, lançada na primeira semana de outubro na Bahia, Carla aponta um viés ideológico acintoso que se tornou jargão na Bahia. “A afirmação de que aqui morre mais negros por conta do contingente populacional ser majoritariamente de afrodescendentes pode ser encontrado em documentos oficiais e em declarações dos gestores e agentes da segurança pública do Estado baiano, independente da conjuntura política ideológica”, declara.

Carla diz que a afirmação é uma falácia e apresenta outra premissa: “é uma tentativa de classificar a seletividade do sistema de justiça criminal como uma mera coincidência, escondendo a gênese desse sistema que foi formado para oprimir a população negra e pobre”.

Uma cena praiana

Publicado no Blog do Bourdokan

Três crianças brincam sob as duchas de um dos chuveiros espalhados pela orla de Santos. Acabam de retornar da praia e os chuveiros estão ali pra isso mesmo. Para as pessoas tirarem a areia e o sal.

Os três são provavelmente da mesma idade, não mais de sete anos.

Estão muito alegres. Uma alegria só.

Um adulto aponta para duas das crianças e manda que saiam imediatamente. E grita para que todos ouvissem:
-Obedeçam ao papai. Saiam já daí.

As duas crianças não se conformam. Querem continuar brincando. O pai é irredutível. Puxa a orelha de um e dá um cascudo no outro.

O garoto que continuou sob a ducha olha assustado. Pede ao “tio” para deixar seus filhos brincarem com ele. O “tio” é irredutível. Com rancor pergunta ao garoto se ele vai demorar, já que seus filhos só voltam ali se ele sair.

Não recebe resposta. Irritado, fala alto:

- Imagine se vou deixar meus filhos brincarem com aquele crioulinho. E procurando cumplicidade, olha em volta e diz:
- É nisso que dá abrir a senzala...

Nem esperou pela indignação das pessoas.Ajeitou as duas crianças no carro e partiu.

A cena aconteceu no sábado a tarde.

Uma espécie em perigo de extinção

 Por Fidel Castro
Revista Caros Amigos
 
Na Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente convocada pela ONU no Rio de Janeiro, afirmei quando era o chefe do Estado cubano: “Uma espécie está em perigo de extinção: o homem”. Quando proferi e fundamentei aquelas palavras, recebidas e aplaudidas pelos chefes de Estado ali presentes – inclusive o presidente dos Estados Unidos, um Bush menos tenebroso que seu filho George W. – estes acreditavam dispor ainda de vários séculos para enfrentar o problema. Eu próprio não o via numa data tão próxima como sessenta ou oitenta anos.
 
Hoje se trata de um perigo realmente iminente e seus efeitos são já visíveis. A temperatura média aumentou 0,8 grau centígrado desde 1980, segundo o Instituto de Estudos Espaciais da NASA. As últimas duas décadas do século 20 foram as mais quentes em centenas de anos. As temperaturas no Alasca, no oeste canadense e no leste da Rússia subiram a um ritmo que duplica a média mundial. O gelo do Ártico está desaparecendo rapidamente e a região pode experimentar seu primeiro verão completamente livre de gelo no ano 2040. Os efeitos são visíveis nas massas de gelo de mais de 2 Km de altura que se derretem na Groenlândia, nas zonas glaciais da América do Sul, do Equador ao Cabo Horn, fontes fundamentais de água, e a gigantesca camada de gelo que cobre a extensa zona antártida.
 
As atuais concentrações de dióxido de carbono atingiram o equivalente a 380 partes por milhão, cifra que supera a geração natural dos últimos 1650.000 anos. O aquecimento está já afetando os sistemas naturais de todo o mundo. Se isso ocorrer, será devastador para todos os povos.
 
Desde a Antiguidade, os filósofos e pensadores mais avançados procuraram a justiça social. Apesar disso, a escravidão física durou legalmente até há 129 anos, quando se decretou a abolição da escravatura na colônia espanhola de Cuba.
 
Hoje, os Estados Unidos possuem milhares de armas nucleares que poderiam exterminar várias vezes a população do mundo. São, por sua vez, os maiores produtores e exportadores de todo tipo de armas. O ritmo acelerado das pesquisas científicas em todas as áreas da produção material e dos serviços, sob a ordem econômica imposta ao mundo depois da Segunda Guerra Mundial, conduziu a humanidade a uma situação insustentável.
 
Nosso dever é exigir a verdade. A população de todos os países tem direito de saber os fatores que originam a mudança climática e quais são as possibilidades atuais da ciência para reverter a tendência, se ainda se dispõe realmente delas.
 
O povo cubano, especialmente sua magnífica juventude, demonstrou que, ainda em meio a um brutal bloqueio econômico, é possível ultrapassar obstáculos inimagináveis.
 

GOLPE DO ESTADO

Beatriz Bissio

Pouco noticiado na grande mídia, no Maranhão, o governador Jackson Lago teve seu mandato cassado juntamente com seu vice, Luis Carlos Porto pelo Tribunal Superior Eleitoral, que, no mesmo golpe, determinou a posse da candidata derrotada Roseana Sarney

Na defesa do governador cassado, Dr. Resek, seu advogado, mostrou, na sua intervenção, as implicações de uma decisão como essa. Adiantava-se, assim, ao que veio acontecer. Mostrou que o Maranhão poderia ser levado ao caos, pois a candidatura de Roseana Sarney vem sendo objeto de processo judicial. A imprensa já tem noticiado as investigações da polícia e do Ministério Público sobre as ilegalidades no financiamento da sua campanha, cujo principal responsável era Fernando Sarney.

Dr. Resek também mostrou o que esse grupo vinha mantendo o seu poder graças a uma forma autoritária de controle do Estado e ao controle das principais emissoras de rádio e de televisão e do maior jornal do Maranhão.

O próprio advogado de defesa de Roseana Sarney, Dr. Sepúlveda Pertence e, depois também, o presidente do Tribunal, Dr. Ayres Britto, fizeram uso de uma frase que teria sido proferida pelo então governador José Reinaldo Tavares: “ pela primeira vez essa família está tendo contra si a máquina do Estado”. Essa frase indicaria a confissão do próprio ex-Governador sobre o uso da máquina do Estado em favor dos candidatos adversários de Roseana Sarney. Mas, na leitura dos magistrados, “escapou” o sentido implícito da frase de Reinaldo Tavares: desde a redemocratização, a família Sarney conseguiu a vitória dos seus candidatos com uso e abuso da máquina do Estado!

Na justificativa de seu voto, o Dr. Ayres Britto alegou que a Constituição coloca para a posse de um cargo majoritário a necessidade de maioria de votos e de lisura na eleição. Parece irrefutável o raciocínio. Porém, esse voto defendia a cassação do Dr. Jackson Lago e, a seguir, a entrega do cargo a Roseana Sarney. Que interpretação sui-generis da letra da lei! Totalmente descontextualizada e ainda utilizada para entregar o cargo a quem em 40 anos demonstradamente utilizou a máquina pública – e a própria justiça para ganhar eleições sem nenhuma lisura e tirar o cargo de quem lutou contra isso!

Que desespero para todos nós, que tanto acreditamos na democracia, ver o quanto ainda estamos longe, neste país, desse sistema de governo que hoje parece só uma utopia!

A cada dia temos mais claras demonstrações de que a ditadura brasileira deixou o espaço político e jurídico minado com bombas de efeito retardado que, ainda hoje, fazem estragos! Cumpriu o seu papel com brilhantismo: assegurou que uns sejam mais iguais que outros, mesmo depois de vinte anos da promulgação daquela que foi chamada de “Constituição cidadã”, que assegura a todos os homens e mulheres a igualdade de direitos e deveres! E que os privilégios de poucos continuem em detrimento dos anseios da maioria.

As mesmas elites que foram bater na porta dos quartéis quando o governo João Goulart começava a implementar medidas que ameaçavam a sua supremacia, hoje se utilizam do aparato do Estado para – ao amparo da Justiça e dos grandes meios de comunicação – violentar o espírito da nossa Carta maior. Que longe estamos do sonho democrático!

E o que fazer diante dessa constatação?

É o nosso direito mostrar a insatisfação diante da injustiça! É o nosso direito mostrar a insatisfação diante do poder dos grandes meios de comunicação, em permanente conspiração contra os valores democráticos e contra as maiorias! É o nosso direito protestar! É o nosso direito ganhar as ruas com as nossas mensagens! Esse espaço é o único que temos! Foi conquistado e não abriremos mão dele! Como bem disse Castro Alves: "a praça é do povo como o céu é do condor".

Enterraríamos os sonhos de gerações que lutaram e deram a vida pela democracia e pela justiça social se nos deixarmos abater pela aparente derrota. O povo brasileiro está dando demonstrações inequívocas de que não aceita mais que os Collors de Mello, os Sarneys, os Calheiros voltem ao cenário como atores de primeira linha!

É necessário demonstrar que no Brasil de 2009, no Brasil de 2010, 2011, 2012, no Brasil de hoje e de amanhã, não há mais espaço para eles!

Se não formos capazes de dar ao povo a esperança de que o voto efetivamente tem valor, de que a Justiça pode ser confiável, de que a lei pode efetivamente ser igual para todos, estaremos diante de um cenário assustador: um povo desiludido e desesperançado, um povo sem verdadeiros canais de participação democrática, a mercê de cantos de sereia salvadores, com o perigo que isso implica. Se o espaço político e institucional continua tomado pela prepotência e pela corrupção, a lei da selva estará instalada entre nós.

Talvez caiba ao povo do Maranhão iniciar a grande transformação que o Brasil está a exigir: a transformação da apatia e do conformismo, do salve-se-quem-puder, da ação desesperada e isolada, em ação positiva, construtiva, coletiva, organizada, enérgica e solidária de um povo que tem dignidade e não se curva perante ninguém, ciente dos seus direitos. O Dr. Jackson Lago disse, após a sua cassação, que a forma que tinha de agradecer ao povo que o acompanhou, ao longo de meses de vigília democrática, era continuar na luta.

Na luta haveremos de continuar!

Colombia, A tragédia mora ao lado

Num país governado pela extrema-direita, os paramilitares continuam agindo impunemente. Em conluio com o exército e inúmeros políticos, eles já desalojaram mais de 3 milhões de pessoas e seguem assassinando as lideranças dos movimentos sociais

Paola Ramírez Orozco-Souel

No centro de Bogotá, na entrada de um arranha-céu vigiado por câmeras, um segurança pergunta mecanicamente o andar, a razão da visita, o número da carteira de identidade e o telefone. em troca, fornece um crachá que autoriza a travessia do hall e dá direito a uma revista minuciosa, que culmina no acesso aos elevadores. No 25° andar, outro segurança faz o mesmo interrogatório. Cruzando duas portas blindadas e uma antessala de vigilância, está a entrada dos escritórios de várias organizações de defesa dos direitos humanos, sindicatos, partidos políticos e organismos independentes.

Por que tanta precaução? Será que a “segurança democrática”, vigorosa política do presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez, no poder desde 2002, é apenas um mito? Inúmeros magistrados, membros de organizações não-governamentais (ONGs), sindicalistas, jornalistas e políticos parecem pensar que sim.

Segundo Alirio Uribe, defensor dos direitos humanos, somente alguns privilegiados – a elite e as empresas multinacionais – são beneficiados pelo governo. Por outro lado, “todos aqueles que criticam a política do presidente ou se opõem a seu regime são satanizados”, quando não assassinados.

Em 28 de novembro de 2008, milhares de manifestantes, vestindo camisetas brancas com os dizeres “Colombia soy yo” (“A Colômbia sou eu”), desfilaram nas principais cidades do país e em capitais do mundo afora (Paris, Madri etc.). Como é de costume, o protesto, que contou com apoio implícito do poder colombiano e explícito dos meios de comunicação nacionais e estrangeiros, criticou somente um dos protagonistas do conflito: a guerrilha.

Curiosamente, em 6 de março do mesmo ano, uma manifestação contra a violência de estado não havia se beneficiado da presença dos holofotes nem das câmeras.

“Nós marchamos para protestar contra as valas comuns, os massacres, os assassinatos, os desaparecimentos e os deslocamentos de populações, pois já estava se propagando a ideia de que era preciso mostrar-se mais solidário com os reféns, e com uma em particular, do que com as vítimas do estado e dos paramilitares”, explica Jorge Rojas, diretor do Conselho para os Direitos Humanos e o Deslocamento forçado (Codhes), uma organização não-governamental.

Mais de 300 mil pessoas se mobilizaram na Colômbia neste 06 de março, convencidas de que a sociedade civil não deve fraquejar “cada vez que os paramilitares ou o presidente a ameaçam”, como se expressou um dos manifestantes.

Hostilidade ao diálogo

Enquanto José Obdulio Gaviria, primo-irmão do falecido barão da droga Pablo Escobar e conselheiro do presidente Uribe, qualificava essa manifestação de “marcha promovida pelas Farc”, os Águilas Negras (Águias Negras), nova denominação dos grupos paramilitares, proferiam ameaças de morte contra seus organizadores e participantes.

Uma semana depois, seis organizadores da marcha foram assassinados. Dez sindicalistas tiveram o mesmo destino ao longo do mês. O único consolo é que, apesar de não ter “o mesmo apoio institucional, econômico e midiático que os protestos contra as Farc, a marcha rompeu com a unanimidade que pretendia se impor e com a ideia de que a violência vem unicamente das guerrílhas”, diz um de seus mentores.

Hostil a qualquer diálogo com a oposição armada, desde sua chegada ao poder, o chefe de estado privilegiou a via militar. Entre 2002 e 2007, 13.634 pessoas foram mortas, vítimas da violência política. Segundo o Codhes, do total de 4 milhões de pessoas desalojadas pela força desde 1985, 3 milhões o foram sob o governo de Uribe.

Para o advogado Sergio Roldán: “os camponeses que se recusam a cultivar a folha da coca são desalojados para dar lugar aos narcotraficantes. A população é igualmente varrida de suas lavouras por grupos armados porque a terra é fonte de exploração comercial. Presidente do Codhes, Marco Romero estima em 6,8 milhões o número de hectares expropriados ou “vendidos ilegalmente por funcionários corruptos”.

O caso de Choco, região da costa do Pacífico onde vivem as comunidades afro-colombianas, é emblemático. Milhares de camponeses foram obrigados a fugir da violência, abandonaram suas terras para ceder espaço aos interesses de grupos industriais nacionais e internacionais, “para os megaprojetos previstos para o cultivo da palmeira-africana utilizada na fabricação de biocombustíveis”.

“O período uribista é o mais repressivo que nossas comunidades já conheceram. É muito difícil fazer valer nossos direitos e territórios reconhecidos pela Constituição de 1991 e pelas cartas internacionais”, narra Daniel Maestre, desalojado da comunidade Kankouano.

Vítimas dos paramilitares, da guerrilha e do exército – implicado em mais de 60% dos casos, segundo a organização Nacional de Indígenas da Colômbia (Onic) –, mais de 1.200 indígenas foram assassinados ao longo dos últimos seis anos. “A ‘segurança democrática’ matou mais gente do que ajudou”, diz Jairo Chicama, um indígena Embera-Katio.

Mais de 170 funcionários do Estado já estão envolvidos no escândalo dito da “parapolítica”, sejam eles parlamentares eleitos ou pertencentes ao círculo do presidente

Uribe se recusa admitir a existência de um conflito político em um país que assiste a uma guerra interna desde os anos 1950. A “ameaça terrorista” para ele é suficiente como explicação. Para “pacificar” a Colômbia, há muito tempo o exército pactuou com os paramilitares que enfrentam indiscriminadamente camponeses, estudantes, sindicalistas, defensores de direitos humanos, jornalistas e militantes políticos.

As famílias das vítimas desse conflito, que tinham depositado todas as suas esperanças nas audiências judiciais previstas pela lei dita de “Justiça e Paz”, adotada em 2005 para “desmobilizar” os paramilitares e lançar luz sobre seus crimes, rapidamente mudaram de tom. Reunidos em torno do Movimento Nacional de Vítimas dos Crimes de Estado (Movice), elas lutam hoje contra o esquecimento e a impunidade “premeditada” do presidente, que extraditou aos estados Unidos 14 dos mais poderosos chefes paramilitares para serem processados por narcotráfico. Na Colômbia, acusados de crimes contra a humanidade, eles poderiam fazer revelações intoleráveis sobre suas pretéritas alianças com a classe política.

De qualquer forma, mais de 170 funcionários do estado já estão envolvidos no escândalo dito da “parapolítica” – termo que designa o conluio entre paramilitares e políticos, sejam eles eleitos ou pertencentes ao círculo do presidente. Entre eles, Jorge Noguera, ex-braço direito do chefe de estado e diretor do Departamento Administrativo de Segurança (DAS), preso (depois libertado) por ter colocado essa instituição a serviço dos paramilitares e por lhes ter enviado uma lista de dirigentes sindicais, professores de universidade e opositores a serem assassinados.

Além disso, 36 deputados eleitos pelo campo majoritário e dois ex-presidentes do Senado estão presos, enquanto outros 65 da mesma maioria seguem sob investigação.

Paradoxalmente, afirma Ivan Cepeda, presidente do Movice, “esses acontecimentos tornam nosso trabalho ainda mais difícil, já que o presidente defende as pessoas ligadas aos paramilitares e à máfia. Nós somos alvo para eles: 20 de nossos dirigentes foram assassinados desde 2005”.

Com a benção das elites locais

Notadamente nos estados de Sucre, Antioquia e de Córdoba, “pela imposição de um regime de terror, os ‘paras’ decidem quem serão os representantes políticos, os catedráticos das universidades, etc. Em uma dessas zonas há uma propriedade do presidente, situada nas proximidades de outra, do chefe paramilitar Salvatore Mancuso. Podemos afirmar com certeza que todos os que vivem na região ou que a conhecem sabem o que se passa por lá”.

Segundo ele, estruturas paramilitares agiriam em 22 dos 32 estados do país, contando com a bênção das elites locais. Mesmo no exterior, alerta Cepeda, as vítimas exiladas ou refugiadas do estado não estão em segurança. “Acusadas de pertencerem às Farc, elas são perseguidas pelas instâncias diplomáticas da Colômbia.”

A exemplo do diário El Tiempo, fonte de informação da imprensa estrangeira e de propriedade do vice-presidente Francisco Santos e do ministro da Defesa Juan Manuel Santos, as redes de televisão tais como RCN e Caracol servem de caixa de resso- nância para a propaganda do poder. Desnecessário dizer que, nas zonas paramilitares, a liberdade de expressão e o pluralismo político desapareceram.

No entanto, o senador Gustavo Petro, do Polo Democrático Alternativo (PDA), observa que, “ainda que todos nós estejamos sob ameaça de morte e que suportemos esse ímpeto destrutivo do presidente, os partidos de esquerda ou de oposição estão vivos nas cidades. Afinal, é difícil matar todo mundo na rua ou ‘acompanhar’ com uma arma cada pessoa que vai votar”. Isso explicaria, em parte, a eleição dos prefeitos da oposição nas três grandes metrópoles do país – Bogotá, Medelín e Cali.

Se as manifestações de resistência pacífica da sociedade civil se multiplicam, o medo de represálias sangrentas persiste. “Com um governo tão autoritário e intolerante como o de Uribe, a oposição política não-armada corre sérios riscos. Ele nos vê como um empecilho à democracia”, afirma Carlos Gaviria, presidente do PDA. Enfrentando os ataques do presidente e os inúmeros assassinatos de seus dirigentes, esse novo partido reúne parte da esquerda do país.

Ansioso por um terceiro mandato, o presidente visivelmente sonha com o desmantelamento da Constituição de 1991. Ele já conseguiu fazer com que a revisassem, não sem denúncias de compra de votos de parlamentares, para que fosse reeleito em 2006.

De acordo com Fernando Cifuentes, procurador da república, “os métodos do presidente, as violações ao texto constitucional e a ‘parapolítica’ desrespeitam os princípios fundamentais da democracia. A continuar assim, nós vamos chegar a uma ditadura totalitária”.

A Corte Suprema de Justiça tem provas e testemunhas para julgar os deputados acusados, mas em vez de deixá-la fazer seu trabalho, Uribe a ataca sempre que pode

Segundo Esperanza Delgado, presidente da Asonal Valle Del Cauca, sindicato de magistrados, “o Executivo exerce uma verdadeira pressão pela via econômica e política. Nós trabalhamos contra a parede, e a independência da justiça não é respeitada.

A Corte Suprema de Justiça tem provas e testemunhas para julgar e condenar os deputados da ‘parapolítica’. Mas, em vez de deixá-la fazer seu trabalho, o presidente a ataca sempre que pode”. De fato, Uribe classifica os juízes colombianos de “prevaricadores putschistas, que fazem o jogo da guerrilha e do terrorismo”.

“Tais manobras”, afirma Delgado, “põem em perigo nossa vida e toda a credibilidade de nossa instituição e de nossa ação. Se o chefe do estado zomba da justiça, imagine os delinquentes!”

No ano passado, por todo o país foram convocadas greves motivadas pela indignação dos servidores do Poder Judiciário. Em setembro de 2008, durante 44 dias, um movimento nacional pela independência da Justiça e pela revalorização salarial mobilizou mais de 80% dos efetivos do setor. Fechado a qualquer diálogo, o chefe do estado replicou decretando estado de emergência.

Quando não é o exército, é o terror anônimo que neutraliza o descontentamento. Na noite de 31 de agosto, uma bomba explodiu no Palácio de Justiça da cidade de Cali. Além de matar quatro pessoas, o atentado destruiu vários processos já encaminhados para a condenação de criminosos. “Nós não nos sentimos seguros”, testemunha uma procuradora. “O presidente se apressou em dizer que se tratava de um atentado das Farc. Ninguém sabe de nada ao certo. Eu tinha processos sobre narcotraficantes, paramilitares e políticos. As audiências estavam previstas para a semana seguinte. Agora eu não tenho mais nada, meu escritório foi completamente destruído.”

Para os sindicatos, a guerra contra “o terrorismo” tem por objetivo camuflar os fiascos do poder: desemprego em alta, uma economia em baixa, 70% de pobres e um aumento de 27% das plantações de folha de coca.

Em tal contexto, por que Uribe daria início a uma série de discussões ou de negociações com a oposição armada? “Sem as Farc, sua política não faria nenhum sentido. ele precisa manter a ameaça terrorista para justificar suas medidas de ‘segurança democrática’, as despesas militares [6% do PIB] e a ausência de investimento social”, afirma o sindicalista Luciano Sanin.

Acusados pelo presidente de “desestabilizar o estado”, os sindicalistas se sentem mais do que nunca ameaçados. “A cultura política da Colômbia sempre recusou o sindicalismo, mas é a primeira vez que temos um regime tão neoliberal e repressivo”, completa Sanin. Segundo a Escola Nacional de Sindicalistas (ENS), 2.684 sindicalistas foram assassinados em 22 anos, dos quais 463 durante os dois mandatos de Uribe.

Expondo a própria vida e a de sua família, os sindicalistas colombianos exercem de fato uma atividade suicida. “Eu preciso me esconder, proteger minha vida e a vida de meus filhos, me mudar cada vez que minha casa é saqueada e recebo ameaças de mor- te”, narra um dirigente. “Para minha família, ser sindicalista é a pior coisa que pode acontecer a alguém neste país.”

Quanto às mulheres, a selvageria que elas suportam “vai muito além dos esquemas que caracterizam a violência política”, analisa Pilar rueda, professora da Universidade de Salle. “Elas são apunhaladas para que pareça um crime passional, são vítimas de sevícias sexuais, de trabalho forçado e representam 70% da população desalojada.” em suma, conclui rueda, sob o pretexto de combater a guerrilha, “os paramilitares combateram uma sociedade civil não-armada”.

Sem garantias para defender seus direitos, a luta pacífica da sociedade colombiana, que quer construir uma verdadeira democracia em um país em guerra, se assemelha a uma aposta. Contudo, o país transborda de iniciativas individuais e coletivas alimentadas pela esperança de obter, um dia, o apoio da comunidade internacional.

“Nós não podemos fazer concorrência à mídia, às armas, ao dinheiro nem ao poder”, afirma Lilia Solano, defensora dos direitos da pessoa, “mas nós podemos perseverar em nossa luta. Eu não sei se nós fomos atingidos por uma loucura coletiva, mas nós seguiremos na resistência.”

COTIDIANO (infelizmente)

Publicado no Blog do Bourdokan

O menino não deve ter oito anos de idade. É um garotinho alegre que acompanha a mãe em direção à Catedral. De repente resolve extravasar sua alegria e sai correndo em direção às escadarias. Dá dois ou três gritos, sempre sorrindo quando se aproxima de um senhor que o adjetivo diria distinto. A violência do pontapé fez a criança girar no ar e cair de boca no chão. O sangue começou a escorrer, seus lábios sangravam. Um deles apresentava um corte respeitável. O senhor distinto, consternado, tentava justificar sua atitude para a mãe e para alguns curiosos. Pensara que fosse um trombadinha, ele que já havia sido assaltado naquele mesmo local várias vezes. O que vocês fariam no meu lugar se vissem um negrinho correndo em sua direção dando gritinhos? Isto ele disse depois de justificar que não era racista, para compreensão dos curiosos e indignação da mãe.

A QUEM SERVE O GRAAL

 

Gildásio Junior

 

Conta a lenda que o cálice sagrado, o Santo Graal, foi o cálice com que Jesus celebrou a última ceia e que José de Arimatéia recolheu o sangue de Cristo após sua perfuração por uma lança como forma de certificação de sua morte por um soldado romano. Por causa disso, o cálice adquiriu poderes curativos.

 

Nos contos arturianos, em versões mais antigas, o Rei, ferido, manda seus cavaleiros em busca do Graal para que fosse curado. Três cavaleiros encontram o santo cálice guardado por um místico conhecido com Rei Pescador.

 

O Rei Pescador mostra aos cavaleiros uma série de cálices nos mais diversos formatos e dos mais diversos materiais e determina que cada cavaleiro poderá fazer uma pergunta que determinará se terá ou não acesso ao Graal.

 

Os dois primeiros cavaleiros fazem perguntas relacionadas a forma e ao material de que seria feito o cálice: é de ouro? Qual o tamanho? e acabam sendo eliminados.

 

Percival, o terceiro cavaleiro, após certa reflexão pergunta: a quem serve o Graal? E sendo essa a pergunta correta, tem acesso ao cálice e torna-se seu novo guardião.

 

Trata-se de uma metáfora, obviamente. E podemos trazê-la para nosso cotidiano e buscar as respostas para uma série de atrocidades que acontecem mundo afora com uma simples pergunta: a quem serve o Graal? A resposta poderá mostrar a verdadeira motivação por trás das ações.

Irã, inimigo número um do Ocidente?

Desde 1948, as relações entre israelenses e iranianos têm momentos de proximidade e distanciamento, a depender da postura dos Estados Unidos na região. Antes tida como aliada para contrabalançar o peso dos Estados árabes, há cerca de dez anos Teerã recebeu a alcunha de “ameaça” permanente

Alastair Crooke

Nossas relações com o Irã eram muito estreitas e bem ancoradas no tecido social dos dois povos”, lamentou um alto funcionário do estado israelense logo após o Aiatolá Khomeini conquistar o poder, em 1979. Na época, Teerã aparecia como um interlocutor natural, tanto para Tel-Aviv como para Washington. Trinta anos mais tarde, porém, as autoridades políticas ocidentais e o governo de Israel consideram o Irã uma ameaça crescente. O que teria ocorrido no caminho?

Para David Ben Gurion, fundador de Israel, seu estado faria parte da Europa e não do Oriente Médio, onde se encontrava por um “acidente geográfico”. “Nós não temos laços com os árabes”, afirmava. “Nosso sistema político, nossa cultura, nossas relações não são fruto dessa região. Não há afinidades entre nós, nem solidariedade internacional.”

Logo após a criação de Israel, aliás, Ben Gurion tentou convencer Washington de que seu país representava um trunfo estratégico no Oriente Médio. Mas o então presidente norte-americano, Dwight Eisenhower (1953-1961), preferiu ignorar essas pretensões, convencido de que os Estados Unidos estariam mais tranquilos se defendessem seus interesses sem a ajuda israelense.

Em resposta, Ben Gurion elaborou o conceito de "alianças periféricas", que visava contrabalançar o peso dos Estados árabes por meio da aproximação com o Irã, a Turquia e a Etiópia. Ele queria, assim, provar a capacidade dissuasiva de seu país, reduzir seu isolamento e torná-lo mais atrativo como "trunfo" para os americanos.

Paralelamente a essa doutrina, Ben Gurion desenvolveu outra ideia: a da “aliança das minorias”. Considerando não apenas os turcos e os persas, mas também os judeus, os curdos, os drusos, os cristãos maronitas do Líbano etc., ele vislumbrava um horizonte onde a maioria da população do Oriente Médio não seria árabe. Para chegar lá, era preciso encorajar o desejo de autonomia nacional e criar ilhotas de aliados em um oceano de nacionalismo árabe.

Foi nesse contexto que se forjou a aliança “natural” com o Irã. em seu livro Treacherous Alliance, o pesquisador Trita Parsi examina os aspectos concretos da cooperação entre Israel e o Xá Reza Pahlavi, em particular quanto à ajuda militar aos insurgentes curdos do Iraque entre 1970 e 1975, que teve como objetivo enfraquecer este país. Israel e Irã compartilhavam um sentimento de “superioridade cultural” em relação às nações árabes, ainda que essa afinidade tivesse seus limites: o Xá, soberano de um país muçulmano, insistia para que suas relações continuassem discretas, o que provocava a irritação de Tel-Aviv.

Pragmatismo de Khomeini

Por mais surpreendente que possa parecer, tal afinidade perdurou após a revolução iraniana, incitando até mesmo autoridades israelenses de direita – especialmente o primeiro-ministro Menahem Begin – a estender a mão aos novos dirigentes de Teerã. o pragmatismo do Aiatolá Khomeini em relação à política estrangeira justificava sua posição: cercados por árabes hostis – a guerra com o Iraque havia começado em setembro de 1980 –, os iranianos só enxergavam a necessidade de uma relação amigável com Israel e as vantagens tecnológicas que poderiam tirar dali, sobretudo no que diz respeito a armamentos. Para o ex-dirigente do Mossad, Yossi Alpher, a lógica da periferia estava tão “profundamente ancorada” na mentalidade israelense que se tornara “instintiva”. Com essa certeza, Israel persuadiu os Estados Unidos a fornecer armas a Teerã nos anos 1980, prelúdio do escândalo do Irã-Contras.

A visão que predominava então era a do dirigente sionista “revisionista” Vladimir Jabotinsky. Este, em seu famoso artigo de 1923 sobre o “Muro de Ferro”, afirmava que o entendimento com os árabes era impossível. Como Jabotinsky, Begin acreditava que Israel não tinha outra forma de se impor senão por sua hegemonia militar – com o apoio norte-americano, claro. Para ele, somente a consciência, entre os árabes, de sua derrota, “e somente quando não houver mais esperança de se livrar de nós, somente nesse momento eles deixarão cair seus líderes extremistas e emergirão os moderados que aceitarão concessões mútuas”.

Por outro lado, a direita israelense continuou tentando pôr em prática a estratégia da “aliança das minorias” na região. Assim, em 1982 Ariel Sharon comandou a invasão do Líbano com o objetivo de destruir a organização para a Libertação da Palestina (OLP) e instalar um poder maronita em Beirute – infligindo à Síria uma derrota arrasadora. estratégia perigosa e mal calculada, pois precipitou o declínio dos maronitas e deu impulso à mobilização Xiita no sul e no Vale do Bekaa, de onde emergiu o Hezbollah. O despertar das minorias iria se voltar contra Israel...

Paralelamente ao fracasso da aventura libanesa, as relações de Israel com a periferia – pelo menos com o Irã – declinavam. essa virada resultava de uma má leitura, partilhada, aliás, com os Estados Unidos: no ocidente, a revolução islâmica, entendida como uma ruptura da progressão histórica em direção à modernidade laica ou como uma reação contra essa modernidade, era considerada uma aberração que seria corrigida com o tempo. Considerava-se que o fundamento ideológico da revolução islâmica estava “oco” e que os “pragmáticos” logo a recolocariam no direito caminho do progresso material – única opção imaginável para os ocidentais. Tel-Aviv e Washington então procuravam febrilmente sinais de pragmatismo em Teerã.

Na realidade, a ideia de uma “modernidade” materialista ao modo ocidental era o que os dirigentes iranianos mais rejeitavam, desejosos de ver triunfar outra concepção na qual os muçulmanos definiriam seu futuro político e social. Mas, se as autoridades no poder em Teerã se opunham totalmente à visão de sociedade dos ocidentais e aos seus esforços de propagação de uma cultura laica, materialista e economicamente liberal – para muitos iranianos, era esta, na verdade, a perspectiva arcaica que cheirava a colonialismo –, isso não era sinônimo de oposição sistemática aos israelenses. A revolução não tinha ambição regional agressiva e não ameaçava Israel ou os Estados Unidos em um plano militar convencional.

Reviravolta Radical

Em 1988, ao término de uma guerra caótica e absurda que durou oito anos, o Irã assinou um cessar-fogo com o Iraque. Entre 1990 e 1992, dois eventos tiveram repercussões em toda a região: a queda da União Soviética e a derrota de Saddam Hussein na primeira Guerra do Golfo (1990-1991). Desapareceram, assim, ao mesmo tempo, a ameaça russa sobre o Irã e a ameaça iraquiana sobre Israel. Irã e Israel tornavam-se a partir de então rivais na região, no momento em que os Estados Unidos afirmavam-se como uma superpotência, única e incontestável.

Tel-Aviv temia acima de tudo ser vista como uma desvantagem pelos Estados Unidos – durante a Guerra do Golfo, Washington tinha pressionado Israel para não revidar os mísseis iraquianos que bombardearam seu território. Por outro lado, a perspectiva de uma hegemonia regional iraniana era uma ameaça para a supremacia militar israelense e criava a possibilidade de uma reaproximação perigosa entre Teerã e Washington.

Em 1992, quando o governo trabalhista dirigido par Itzhak Rabin tomou a decisão de abandonar a estratégia da periferia e promover a paz com os árabes, houve uma reviravolta radical. “O Irã deve ser identificado como o inimigo número um”, declarou Yossi Alpher, então conselheiro de Rabin, ao The New York Times. A partir daí, Israel e seus aliados na América do Norte não cessaram de acusar Teerã de tentar desenvolver a arma nuclear. Em 1999, Shimon Peres advertiu a comunidade internacional de que o Irã teria a bomba atômica.

Entretanto, diversos membros da administração do governo Clinton e certo número de personalidades do Establishment israelense continuavam céticos. Ex-oficial dos serviços de informação israelenses, Shlomo Brom explicou a Trita Parsi, em um tom irônico: “Lembre-se de que os iranianos estão sempre a cinco ou sete anos da bomba”.

Israel decidiu então negociar com Yasser Arafat e os Estados Unidos desenvolveram uma estratégia paralela: suscitar o realinhamento pró-ocidental de alguns Estados árabes mobilizados contra os inimigos situados na “periferia” – bárbaros que atacavam os valores, as instituições e as liberdades da civilização ocidental, estando em primeiro lugar o Irã. O plano foi acelerado com a vitória de George W. Bush em novembro de 2000.

Propostas rejeitadas

O poder norte-americano era o instrumento que iria “anunciar o fim da revolução iraniana”, segundo a fórmula utilizada por William Kristol, um eminente comentarista conservador, em maio de 2003. A derrota iraniana permitiria matar dois coelhos com uma cajadada só: enfraqueceria, ao mesmo tempo, o moral dos árabes e muçulmanos e a resistência islamita. Todo o Oriente Médio cairia, como numa partida de dominó.

Não é surpreendente, então, que, apesar da cooperação de Teerã com Washington na Guerra do Afeganistão (2002) e na Guerra do Iraque (2003), as tentativas iranianas de chegar a um “acordo global” com os Estados Unidos tenham sido todas rejeitadas ou comprometidas por membros do governo Bush. A proposta iraniana de 2003 de abrir negociações entre os dois países sobre diversos pontos – programa nuclear, apoio ao Hamas e ao Hezbollah, reconhecimento de Israel, ingerências norte-americanas etc. – foi apenas a reformulação de uma anterior de entabular uma discussão sobre todas as questões que eram objeto de desacordo entre esses países.

Mas a compreensão do episódio de 2003 como o sinal de que “a pressão pesava” sobre o Irã, de que a ocupação do Afeganistão e do Iraque tinha impelido Teerã a desfazer seus laços com a resistência e aceitar Israel, se apoia numa má interpretação de Washington, que se fechou em uma visão maniqueísta: os “moderados” da região contra o “extremismo” islamita. Isso resultou na polarização da região em dois blocos.

Na tentativa de quebrar a resistência do mundo muçulmano à sua visão liberal do futuro, os Estados Unidos e seus aliados europeus suscitaram mobilizações de massa contra seus projetos e a radicalização da hostilidade contra o ocidente. As antipatias imaginárias podem, assim, se tornar bem reais.

Agricultura patenteada

Há cinco anos as plantações de algodão de Burkina Faso, as maiores da África Ocidental, vêm sendo contaminadas por organismos geneticamente modificados. E ao que tudo indica, o país é apenas o ponto de partida para a expansão dessa tecnologia, que traz enormes benefícios a empresas como a Monsanto

Françoise Gérard

Há algum tempo, o pequeno Burkina Faso, um dos Estados mais pobres do mundo, se lançou discretamente na cultura de organismos geneticamente modificados (OGM). Em princípio, com o algodão BT. Revelada ao grande público em 2003, a parceria do país com a gigante americana de sementes Monsanto suscitou controvérsia entre a população rural e as associações locais, por representar um teste para o desenvolvimento dos OGMs em toda a África Ocidental.

Como Burkina Faso acabou se envolvendo com a empresa famosa por seu herbicida “Roundup” e seu “agente laranja”? A sacrossanta “luta contra a pobreza”, para a qual os OGMs trariam sua contribuição, dinamizando a agricultura do país, parece ser apenas um pretexto e as reais motivações dos parceiros estão só começando a aparecer, após muita pressão dos agricultores locais.

Apesar de Burkina Faso ter assinado a Convenção sobre Diversidade Biológica, de 1992, e o Protocolo de Cartagena sobre biossegurança, de 2000, isso não impediu que desse início, em segredo, às primeiras experiências com algodão BT, já em 2001. O desrespeito é evidente: esses tratados internacionais estipulam que os países signatários devem dotar-se de um aparato legislativo e tomar todas as precauções antes de começar a cultura de OGMs. Além disso, comprometem- se a informar a população dos perigos e a não tomar nenhuma decisão sem ampla consulta pública.

No entanto, foi só em 2003, durante uma oficina sobre biossegurança realizada em Uagadugu, a capital, que a Liga dos Consumidores soube da existência dessas experiências e divulgou para a população aquilo que o Instituto do Meio Ambiente e da Pesquisa Agrícola (Inera) tinha dissimulado. A Monsanto sustentou que as experiências estavam sendo realizadas em “espaços confinados”. No entanto, omitiu que as redes que protegiam essas plantações estavam rasgadas, possibilitando a contaminação do entorno por meio do ar.

Após quase cinco anos da chegada da cultura de OGMs, o Parlamento de Burkina Faso ratificou, em abril de 2006, o Regime de Segurança em Biotecnologia. A lei tem como objetivo “garantir a segurança humana, animal e vegetal e a proteção da diversidade biológica e do meio ambiente”, segundo seu artigo 22, sendo a Agência Nacional pela Biossegurança (ANB) encarregada pela avaliação dos riscos. Ora, segundo seus oponentes, é exatamente porque os riscos são incontroláveis que essas culturas são contestadas... 

A Monsanto escolheu Burkina Faso porque o país é o maior produtor de algodão da África Ocidental, à frente do Mali, Benim e Costa do Marfim. Além disso, sua situação geográfica o torna o Cavalo de Tróia da biotecnologia na região. Afinal, as fronteiras na África são porosas, facilitando as trocas involuntárias e a contaminação “acidental” de plantações livres de OGMs, o que traz enormes benefícios às empresas que pregam essa tecnologia. Uma vez infectada uma plantação, não há como voltar atrás. Isso possibilita não só a cobrança de royalties sobre essas plantas geneticamente modificadas, que nem sequer foram adquiridas pelos agricultores, como também condiciona o controle técnico aos produtos daquela empresa específica. Por exemplo: um OGM responde preferencialmente aos herbicidas produzidos pela mesma empresa que o desenvolveu, em geral mais caro.

Sutilmente, os OGMs estão, portanto, se impondo, sem que os cidadãos percebam. Se o Benim renovou por cinco anos uma moratória em relação aos OGMs, o Mali acaba de ceder à pressão e autorizar as experiências com algodão BT.

Burkina Faso era o ponto fraco da região: seu presidente, Blaise Compaoré, tentava reatar os laços com a “comunidade internacional” depois de ter apoiado ativamente Charles Taylor – que agora responde à justiça internacional – durante a mortífera guerra civil da Libéria, nos anos 1990. Ele era suspeito de ter alimentado o tráfico de armas e diamantes na sub-região. Em alguns anos, seu país se tornou aluno modelo das instituições financeiras internacionais e da Organização Mundial do Comércio (OMC). A parceria com a Monsanto constituiu, assim, um gesto político de boa vontade com os Estados Unidos, extremamente descontentes com a atitude de Compaoré na Libéria.

A partir de 2003, o ministro da Agricultura, Salif Diallo, fez do algodão OGM sua principal bandeira. A União Nacional dos Produtores de Algodão (UNPCB), dirigida por François Traoré, depois de ter manifestado suas preocupações com a nova tecnologia, mudou de opinião em troca de 30% das ações da Sociedade de Fibras Têxteis (Sofitex), principal empresa de algodão de Burkina, privatizada a pedido do Banco Mundial.

Em seguida, os agricultores dissidentes criaram o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Agropastoral (Syntap) em violenta oposição aos OGMs. O líder rural Ousmane Tiendrébéogo se revolta: “Aqui só existe a agricultura, não temos o direito de jogar roleta russa com nosso futuro”.

À frente da UNPCB encontram-se três empresas de algodão: a Sofitex, na região oeste, a Sociedade de Algodão de Gourma (Socoma), na região leste, e a Faso Coton, na região central, que constituem um cartel que, junto com os produtores, fixa o preço anual. Em 2008, o quilo do algodão estava em 165 francos CFA (R$ 0,80). As empresas fornecem – a crédito – os insumos, os inseticidas e os herbicidas necessários; depois, quando é feita a colheita, elas vêm recolher a matéria-prima.

Essa relação, herdada do sistema colonial, é uma faca de dois gumes, pois não dá autonomia ao produtor. Proprietário de sua parcela, ele pode, teoricamente, abandonar o algodão se considerar o lucro insignificante, e adotar outra cultura rentável, como o gergelim. Mas, na realidade, sua dívida e seu baixo nível de instrução, assim como os produtos fornecidos pelas empresas, o tornam dependente do sistema. Yezuma Do, produtor, conta a pressão que sofrem: “Eles vieram com as autoridades e a polícia para nos dizer que, no ano que vem, todos nós produziremos o BT, porque é melhor para nós. Mas eles não nos dizem os preços das sementes. E, se recusarmos, a UNPBC nos avisou que não poderemos descaroçar nosso algodão convencional na região”. Cansado de brigar, Do considera renunciar à cultura do algodão, junto com vários vizinhos.

Propriedade intelectual

A UNPCB e as empresas de algodão constituíram a Associação Interprofissional do Algodão de Burkina (AICB). Em comum acordo com os pesquisadores do Inera e da Monsanto, a AICB supervisiona a formação dos técnicos e dos produtores. É ela quem fixará os preços das sementes BT para 2009. O círculo está fechado.

Em 2008, 12 mil hectares de algodão BT, do tipo Bollgard II, foram cultivados a fim de obter sementes para 300 a 400 mil hectares, tendo a ANB autorizado a produção comercial do algodão BT para 2009.

O que acontecerá realmente? Se a semente do algodão convencional retirada da colheita só custa 900 francos CFA (R$ 4,30) o hectare, por outro lado os direitos de propriedade intelectual (DPI) devidos à Monsanto podem ultrapassar os 30 mil francos CFA (R$ 144) por hectare. As empresas de algodão se contentam em tranquilizar os produtores prometendo-lhes que o preço não excederá seus meios.

Uma frente anti-OGM foi constituída pelos agricultores: a Associação para a Conservação do Patrimônio Genético Africano (Copagen). É integrada também por alguns grupos de países vizinhos, como Benim, Mali, Costa do Marfim, Niger, Togo e Senegal. Apesar de suas capacidades financeiras restritas, a Copagen organizou, em fevereiro de 2007, uma caravana pela sub-região a fim de sensibilizar e informar as populações rurais do perigo que elas correm. Essa manifestação foi concluída com uma marcha de protesto nas ruas de Uagadugu. Nos cartazes, podia-se ler: “Não à imposição das multinacionais”, “Cultivar orgânicos é proteger nosso meio ambiente”, “Os acordos de parcerias econômicas [APE] [7] e os OGMs não são a solução para a África, eles são é contra nós. Pare – pense – resista”.

Um participante resumia assim o problema: “Se é isso, o OGM, nós não o queremos! Será que os responsáveis trabalham verdadeiramente para o nosso bem? É preciso desde já divulgar a informação e a sensibilização sobre os OGMs. Eles nunca passarão pela África”.

Contudo, a frente pró-OGM não economiza nos gastos; beneficiando-se do apoio do governo, organiza coletivas de imprensa, tem suas viagens de estudo totalmente pagas, faz excursões de campo, divulga filmes “de informação”... Os folhetos impressos em papel brilhante da Monsanto descrevem um mundo idílico com a ajuda das estatísticas do Inera. Eles sustentam que as sementes OGM, Bollgard II, trarão um aumento médio de renda de 45%, uma redução de pesticidas de seis para duas aplicações, uma diminuição de custos de 62% – portanto, uma economia de 12.525 francos CFA por hectare (R$ 62) – e, consequentemente, um benefício para a saúde dos produtores e para o meio ambiente.

Nada parece mais aleatório que a “renda média” em um país submetido a uma pluviometria inconstante. Se não chove, a população rural acaba obrigada a realizar até duas ou três semeaduras sucessivas. Quando o preço das sementes é insignificante, trata-se “apenas” de um aumento de trabalho. Mas, quando se devem quitar os DPIs, quanto renderá um hectare de algodão? Além disso, parece que o gene milagroso é sensível à seca e que degenera à medida que a planta cresce.

Último inconveniente: durante um curso organizado pela União Européia, do qual participava François Traoré, os produtores de algodão foram intimados a guardar um estoque de pesticidas por segurança, em caso de necessidade. O que significa que o recurso aos produtos químicos não diminui, com certeza.

Efetivamente, dois fenômenos podem ocorrer: a aparição de lagartas resistentes ao gene (em quatro ou cinco anos) ou de pragas secundárias não dominadas por essa tecnologia. Os Estados Unidos e a Índia já experimentaram esse problema. E curiosamente, na reunião do Comitê do Conselho Internacional do Algodão (CCIC) em Uagadugu, de 17 a 21 de novembro de 2008, ao ser exaltado o êxito espetacular do algodão BT indiano (seis anos consecutivos de rendas crescentes), nenhuma menção foi feita à onda de suicídios entre os pequenos produtores, arruinados por uma produção bem inferior ao que lhes foi apresentado.

Argumentos sedutores

Quanto à redução dos gastos, é bem imprudente calcular um número agora, já que a Monsanto guarda cuidadosamente o segredo do preço dos DPI, que se acrescentará ao dos insumos e herbicidas. Se os rendimentos forem melhores, a diferença irá para pagar o custo extra dos DPI.

O argumento mais sensível para os produtores continua sendo o da diminuição dos pesticidas, que a Monsanto apresenta de forma sedutora. Frequentemente, durante os dias de semeadura, os agricultores dormem nos campos com toda sua família, se expondo assim à toxicidade agressiva desses produtos. Ora, poder-se-ia utilizar um inseticida natural tirado do neem, uma árvore comum na África Ocidental, como mostram experiências realizadas no Mali, em 10% dos algodoais, pela Companhia Malinesa para o Desenvolvimento dos Têxteis (CMDT).

Em 2001, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lançou um projeto de gestão integrada da produção e do controle de predadores naturais, visando reduzir, e até suprimir, a utilização de pesticidas. Contudo, nada foi feito para que esse programa passasse do estado de experiência piloto. E mais: “A UNPCB se comporta como uma milícia no centro do mundo rural, reforçando a política da Sofitex, que nos impõe insumos e inseticidas sem nos dar a possibilidade de recusá-los”, protesta Do.

Entre as soluções alternativas aos OGMs existe o algodão orgânico sustentável que a associação Helvetas lançou no Mali, em 2002, e em Burkina Faso, em 2004. Sem produto químico, com adubo orgânico (gratuito) e colheita de primeira qualidade, o solo se regenera em vez de se degradar. O quilo de algodão é pago a 328 francos CFA (R$ 1,60) ao produtor, contra 165 francos CFA (R$ 0,80) para o convencional. A cadeia produtiva já reúne cerca de 5 mil pequenos produtores em cerca de 7 mil hectares divididos em três regiões: a oeste, ao centro e a leste de Burkina Faso.

Mas vários fatores parecem frear sua expansão: além das pressões tonitruantes da Monsanto, aliada às instituições financeiras internacionais, o transporte do adubo orgânico pressupõe, no mínimo, um burro e uma charrete. E raros são os agricultores que dispõem de algum meio de deslocamento. Segundo Abdoulaye Ouedraogo, responsável pela cadeia produtiva do algodão na Helvetas-Burkina: “Aqui não há futuro para os OGMs. Primeiro, por razões climáticas. Depois, porque os pequenos produtores não seguirão nunca as orientações. Eles se preocupam primeiro em encher os celeiros para alimentar a família: o algodão vem apenas depois. Não é como nos Estados Unidos, onde se pratica a monocultura a perder de vista”.

O furor pró-OGM se explica, então, não apenas pela vontade das transnacionais, mas também pelo enriquecimento que isso gera para uma classe privilegiada, em detrimento dos interesses do país.

Bloqueio israelense causa suicídio entre os palestinos

Publicado no Blog do Bourdokan

Os palestinos estão se suicidando por falta de perspectivas. O bloqueio imposto por Israel é a principal razão.

De janeiro deste ano até agora mais de 250 palestinos tentaram o suicido. Na Faixa de Gaza foram 95 tentativas, com sete mortos.

Os suicidas são em sua maioria adolescentes, rapazes e moças, que não vêem perspectivas para continuar vivendo.

Sentem-se prisioneiros num campo de concentração já que Israel continua mantendo os bloqueios (são mais de 270), que além de dificultar a circulação, causam humilhação.

Israel prometeu aos observadores internacionais que relaxaria os bloqueios se os palestinos não mais se defendessem de seus agressores sionistas.

Há mais de seis meses que os palestinos suportam as humilhações sem reagir. Mas como de praxe, Israel não honrou o compromisso de acabar com os bloqueios. Pelo contrário.

Continuam demolindo casas. Destroem oliveiras, roubam colheitas, não permitem a entrada de remédios, cortam o abastecimento de água e energia elétrica.

Além das invasões diárias os israelenses já assassinaram mais de 40 jovens que são seqüestrados para a retirada de seus órgãos.
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]